Escreva aqui a introdução da matéria.
Em algum lugar entre uma gravação, uma reunião de negócios e a rotina com os filhos, existe a imagem que melhor explica Viih Tube: uma mulher cuja vida pessoal e profissional cresceram diante do mesmo público.
A internet conheceu Vitória di Felice Moraes quando ela ainda era adolescente. Seu canal no YouTube foi criado em 2013, quando tinha 12 anos, e começou com vídeos sobre cotidiano, escola, relações e inquietações próprias daquela fase. O que sustentava o conteúdo não era uma produção sofisticada, mas uma sensação de proximidade. Ela falava como alguém que estava vivendo as mesmas dúvidas de quem assistia.
Mais de uma década depois, Viih deixou de ocupar apenas o lugar de criadora de conteúdo. Tornou-se empresária, mãe de Lua e Ravi e fundadora de projetos que buscam transformar alcance digital em produtos, entretenimento e propriedade intelectual. Em 2026, acumulava aproximadamente 11 milhões de seguidores no YouTube, quase 32 milhões no Instagram e 16 milhões no TikTok.
Os números impressionam. A transformação por trás deles é mais relevante.
Viih Tube pertence à primeira geração de influenciadores brasileiros que precisou aprender o ofício enquanto ele ainda estava sendo inventado.
Não havia uma carreira claramente desenhada, uma formação específica ou um manual sobre como transformar exposição em empresa. Havia tentativa, improviso e a percepção gradual de que pessoas estavam dispostas a acompanhar não apenas vídeos, mas fases inteiras de uma vida.
Viih experimentou diferentes formatos e chegou a criar canais sobre beleza, maquiagem e tecnologia. Mais tarde, reconheceu que esses caminhos imitavam interesses de outras pessoas, sem refletir aquilo que realmente sabia ou gostava de fazer. Seu conteúdo encontrou consistência quando ela compreendeu que sua principal força estava em conversar, opinar e compartilhar a própria realidade.
Essa descoberta se tornaria a base de sua marca pessoal.
A audiência não acompanhava apenas um tema. Acompanhava Vitória mudando.
A maior parte das pessoas pode abandonar versões antigas de si mesma em relativa privacidade. Criadores que começam cedo não possuem esse privilégio.
Vídeos permanecem arquivados. Erros atravessam anos. Frases ditas na adolescência podem continuar circulando quando a pessoa já pensa de outra maneira. Viih aprendeu a lidar com esse fenômeno antes mesmo da vida adulta.
Em 2021, sua participação no Big Brother Brasil ampliou a exposição e colocou sua personalidade sob observação contínua. Antes de entrar no programa, ela já reconhecia as dificuldades de ter crescido publicamente e dizia que as experiências duras da internet haviam contribuído para seu amadurecimento.
O reality não criou Viih Tube, mas apresentou uma nova escala de visibilidade — e reforçou uma característica que marcaria sua trajetória: a capacidade de continuar depois da crítica.
Amadurecer publicamente não significa apagar o passado. Significa permitir que novas escolhas tenham mais força do que antigas impressões.
O nascimento de Lua, em 2023, transformou o conteúdo, o público e a visão empresarial de Viih. Ravi nasceu em 2024, ampliando uma fase em que maternidade, família e trabalho passaram a se desenvolver de maneira integrada.
Viih começou a compartilhar dúvidas sobre amamentação, sono, cólica, rotina e cansaço. Em vez de representar uma maternidade permanentemente controlada, falou sobre insegurança, exaustão e a dificuldade inicial de aceitar ajuda.
A conversa encontrou uma audiência que também havia crescido.
As adolescentes que assistiam aos primeiros vídeos tornaram-se mulheres adultas; algumas, mães. Viih deixou de falar para uma geração e passou a amadurecer com ela.
A maternidade também revelou um território de negócio que possuía ligação verdadeira com sua vida. Depois de experiências pouco duradouras em moda e maquiagem, ela percebeu que não bastava ter audiência capaz de comprar. Era necessário encontrar uma categoria pela qual sentisse interesse suficiente para construir continuidade.
A Turma Tube nasceu quando Viih e Eliezer começaram a desenvolver produtos para Lua. A marca, lançada inicialmente como Baby Tube em 2023, apresentou brinquedos ligados a diferentes etapas do desenvolvimento infantil. O primeiro lançamento teve 50 mil unidades disponíveis e expectativa inicial de faturamento superior a R$ 2 milhões.
O projeto cresceu para incluir brinquedos, roupas, enxoval, músicas, apresentações e conteúdo audiovisual. Em vez de depender apenas da imagem dos fundadores, passou a trabalhar com personagens e narrativas próprias.
Essa mudança é central para compreender a evolução de Viih como empresária.
Publicidade monetiza atenção. Propriedade intelectual pode produzir valor para além de uma publicação ou campanha.
Outros negócios vieram depois. A Spoiler atua em perfumaria, área relacionada ao interesse pessoal de Viih por fragrâncias. A Minha Publi reúne iniciativas ligadas à produção de conteúdo, afiliados, UGC e formação de novos criadores.
A lógica passou a ser menos dispersa: construir apenas aquilo que conversa com sua experiência, seu repertório e sua comunidade.
iih reconhece que ter seguidores não significa saber vender ou administrar uma empresa.
Ao estruturar a própria equipe, precisou aprender negociação, organização comercial, contratação e responsabilidade sobre profissionais que dependiam daquela operação. Foi nesse momento que deixou de enxergar a criação de conteúdo apenas como uma atividade espontânea e passou a compreendê-la como trabalho capaz de sustentar uma estrutura empresarial.
A distinção é importante para toda a creator economy.
Uma audiência pode garantir visibilidade inicial. Não assegura qualidade de produto, logística, recompra ou longevidade. Para ultrapassar a influência, é necessário desenvolver operação, marca, atendimento e propósito.
Viih parece ter aprendido essa diferença por tentativa.
Alguns projetos venderam rapidamente, mas não permaneceram porque não havia identificação suficiente para sustentar uma segunda coleção ou um novo ciclo. A maturidade empresarial surgiu quando ela percebeu que sucesso de lançamento e construção de empresa são coisas diferentes.
A trajetória de Viih Tube não é linear. Foi construída por fases, testes, críticas, mudanças e recomeços.
Sua principal habilidade talvez não esteja apenas na comunicação, mas na capacidade de perceber quando a própria vida mudou — e permitir que o trabalho mude com ela.
A adolescente falava sobre escola. A jovem atravessou o entretenimento e a televisão. A mãe encontrou uma nova comunidade. A empresária começou a converter experiência em produtos e personagens.
Existe risco em transformar cada momento íntimo em negócio. Privacidade, infância e família exigem limites que não podem ser definidos apenas pela audiência. Mas existe também inteligência em reconhecer necessidades reais a partir da própria experiência e criar soluções que possam servir a outras pessoas.
Viih Tube não construiu seu caminho apesar das mudanças.
Construiu por meio delas.
A menina que procurava conexão encontrou uma comunidade. A mulher que nasceu dessa comunidade aprendeu que influência pode abrir portas, mas apenas propósito, gestão e continuidade conseguem mantê-las abertas.
Seu império ainda está em formação.
E talvez sua maior força esteja justamente nisso: continuar crescendo sem fingir que já terminou de se tornar quem é.