Há algo de profundamente brasileiro na imagem de uma planta bela, doméstica e venenosa guardando a entrada de uma casa.
Popularmente associada à proteção, a comigo-ninguém-pode tornou-se presença recorrente em jardins, varandas e rituais cotidianos. Sua toxicidade, porém, impede qualquer leitura inocente: aquilo que protege também pode ferir. É dessa ambiguidade que Diane Lima parte para construir o Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza, colocando Adriana Varejão e Rosana Paulino em um diálogo que atravessa mais de três décadas de produção artística
A escolha do título não funciona como ornamento tropical. É uma tese.
Comigo ninguém pode fala sobre a necessidade de defesa de um país constituído por violências coloniais, mas também por tecnologias de sobrevivência, reinvenção e fé. Fala de um Brasil que conhece o veneno porque foi historicamente exposto a ele — e que, justamente por isso, desenvolveu formas próprias de cura, proteção e permanência.
Duas artistas, uma história que não cicatrizou
Adriana Varejão e Rosana Paulino nasceram na década de 1960 e construíram trajetórias centrais na arte brasileira, mas nunca haviam realizado uma exposição conjunta. Em Veneza, a aproximação não procura apagar as diferenças entre suas experiências. Ao contrário: é da fricção entre elas que emerge a força do projeto.
Varejão trabalha com a pele cultural do Brasil. Azulejos, arquitetura colonial, talha barroca, cartografias e superfícies aparentemente ordenadas são rompidos por incisões, vísceras e matérias que parecem escapar das paredes. Sua pintura frequentemente revela que, sob a aparência civilizatória, permanecem estruturas de dominação, violência e desejo.
Paulino investiga quem foi transformado em objeto por essas mesmas estruturas. Fotografias de arquivo, linhas, costuras, tecidos, gravuras e esculturas reconstroem histórias de mulheres negras submetidas ao olhar científico, colonial e patriarcal. Em suas mãos, a sutura não disfarça a ferida: torna visível tanto o trauma quanto o trabalho necessário para sobreviver a ele.
No pavilhão, Aracnes, iniciada por Paulino em 1999 e reconfigurada para 2026, apresenta fotografias impressas de mulheres escravizadas sobre uma estrutura de concreto. A obra convive com relevos e intervenções de Varejão que avançam sobre a arquitetura. Novas peças de Atlântico Vermelho, de Paulino, aproximam-se formalmente das superfícies da outra artista, criando correspondências sem transformar experiências distintas em equivalências fáceis.
Quando o edifício deixa de ser neutro
O próprio Pavilhão do Brasil integra a narrativa. Projetado em 1964 por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral, o edifício passou por um processo de recuperação concluído em 2026, com restauro de elementos arquitetônicos, atualização de infraestrutura e melhorias de acessibilidade.
Em vez de utilizar o espaço como um simples recipiente, a exposição tensiona sua herança modernista. Doze telas inéditas de Varejão ocupam a viga central; Paulino apresenta uma nova configuração de Tecelãs, de 2003, concebida em relação direta com o edifício. Na fachada, padrões associados à tradição colonial portuguesa encontram formas semelhantes a casulos, fazendo da arquitetura um organismo contaminado pela arte.
A construção moderna, símbolo de um Brasil que desejava projetar racionalidade e futuro, passa a abrigar aquilo que essa narrativa frequentemente deixou à margem: corpos racializados, espiritualidades não europeias, memórias femininas e histórias que não se organizam em linha reta.
Diane Lima e o poder de compor diferenças
A curadoria de Diane Lima é decisiva porque não apresenta Varejão e Paulino como capítulos separados. Sua proposta é fazê-las soar como uma composição: uma voz formada por harmonias, interrupções e dissonâncias.
Primeira mulher negra a assumir a curadoria do Pavilhão do Brasil, Lima também integra a primeira representação brasileira em Veneza conduzida inteiramente por mulheres. O marco importa, mas seria insuficiente tratá-lo apenas como conquista de representatividade. O que está em jogo é uma mudança de autoridade: quem seleciona as imagens do país, quem interpreta sua história e quem determina os termos de sua circulação internacional.
Nesse sentido, o protagonismo feminino não aparece como tema isolado. Ele estrutura a exposição. São mulheres observando como nações, museus e cânones foram construídos — e recusando a ideia de que o reconhecimento internacional dependa da suavização de conflitos brasileiros.
O Brasil em outra frequência
A 61ª Bienal de Veneza reúne cem participações nacionais e tem como exposição central In Minor Keys, projeto concebido pela curadora camaronesa Koyo Kouoh. A mostra propõe uma escuta menos estridente, orientada por ideias de encantamento, espiritualidade, memória, coletividade e transformação.
O pavilhão brasileiro encontra essa frequência sem abandonar sua singularidade. Não oferece uma imagem solar e conciliadora do país, tampouco transforma violência histórica em espetáculo. Sua potência está em sustentar contradições: o belo pode conter brutalidade; a cicatriz pode ser arquivo; a natureza pode curar e intoxicar; a espiritualidade pode ser, também, uma forma de soberania.
Selecionado pelo The Art Newspaper entre os destaques dos pavilhões nacionais da edição, o projeto demonstra que a internacionalização mais relevante da arte brasileira não acontece quando o Brasil se torna facilmente decifrável. Acontece quando obriga o mundo a rever as categorias com que tentou compreendê-lo.
Em Veneza, Adriana Varejão, Rosana Paulino e Diane Lima não apresentam um país resolvido. Apresentam um país consciente das próprias feridas — e suficientemente autor de si para transformá-las em linguagem.
O “comigo” do título deixa, então, de ser individual. Torna-se corpo coletivo, memória compartilhada e advertência: ninguém poderá falar pelo Brasil sem escutar as mulheres que o estão reescrevendo.
Serviço: Comigo ninguém pode, Pavilhão do Brasil, Giardini della Biennale, Veneza. Em cartaz até 22 de novembro de 2026.